Goiânia (GO) · Publicado em
Uma camisa vermelha. Um adesivo no vidro traseiro. É com esse tanto de informação que a polícia goiana passou a encontrar suspeito e veículo nas imagens do videomonitoramento. A ferramenta se chama IA Contra o Crime em Goiás e já ajudou em mais de mil prisões desde maio de 2025.
Plataforma acha suspeito pela cor da camisa ou por adesivo no carro
O recurso que distingue o sistema é a busca a partir de informação mínima. A ocorrência costuma chegar assim: sem placa, sem nome, sem imagem nítida do rosto. Sobra a descrição da testemunha, que raramente passa de um detalhe.
Era exatamente esse detalhe que se perdia. A inteligência artificial agora o transforma em critério de busca e varre o acervo de imagens atrás de correspondência.
“Nós precisamos de apenas um pequeno detalhe, às vezes a cor da camisa, às vezes a cor do carro, às vezes um adesivo em um carro. Isso já é suficiente para que a nossa plataforma, com a inteligência artificial, já possa identificar rapidamente”, afirmou o governador Daniel Vilela (MDB).
A diferença em relação ao circuito de câmeras tradicional está no verbo. Antes, o policial assistia. Agora, ele pergunta — e o sistema devolve os trechos em que aquela característica aparece.
Sistema já ajudou em mil prisões e 2,5 mil casos desde maio de 2025
Os números do projeto-piloto sustentam o discurso oficial. Desde maio de 2025, a plataforma auxiliou na solução de mais de 2,5 mil casos policiais, em mais de mil prisões e na recuperação de mais de mil veículos.
O diretor da Goiás Tecnologia, João Grego, acrescentou o dado que dá dimensão ao resto: esses resultados vieram com apenas parte dos equipamentos previstos para o fim da etapa atual. A base de imagens que os produziu era, portanto, menor que a de agora.
Para 2026, a expectativa oficial é de mais de 10 mil ocorrências elucidadas com apoio da ferramenta.
Câmeras privadas vão entrar na mesma base de imagens
O passo seguinte muda o alcance do sistema, e é o que mais afeta quem tem comércio, condomínio ou casa com câmera na fachada. O governo prevê integrar à plataforma imagens captadas por câmeras públicas e privadas.
Com isso, as câmeras de padaria, portaria ou posto de combustível, entre outras que entrarem na base, ampliam o número de ângulos disponíveis para a busca — e reduzem os pontos cegos entre um poste e outro.
Bombeiros usarão a mesma plataforma contra queimadas
A ferramenta não serve só à caça de suspeito. O secretário de Segurança Pública, Renato Brum, detalhou o uso por corporação, e a divisão revela aplicações que fogem do óbvio.
- Polícia Civil: apoio às investigações em curso.
- Polícia Militar: identificação de suspeitos e de veículos em circulação.
- Corpo de Bombeiros: monitoramento de queimadas.
- Polícia Técnico-Científica: coleta e análise de dados.
O uso pelos Bombeiros pesa em Goiás. Setembro é o mês em que o Estado concentra focos de incêndio no Cerrado, e detectar fumaça cedo, por câmera já instalada, encurta o tempo entre o começo do fogo e a chegada da guarnição.
Para o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, José Frederico Lyra Netto, a ferramenta serve para fornecer informação que auxilie a decisão das forças. “Vai auxiliar no trabalho que já é feito para reduzir, ainda mais, os índices de criminalidade em Goiás”, disse.
Mapa de calor da criminalidade define onde a câmera vai
Os pontos de instalação não seguem divisão uniforme por território. Saem do mapa de calor da criminalidade, o que significa concentrar equipamento onde a ocorrência se repete.
A fase atual prevê mais de 5,3 mil novas câmeras de videomonitoramento. Levantamento anterior indicou que 1.146 delas fazem reconhecimento facial, ligadas ao Banco Nacional de Mandados de Prisão e à base biométrica estadual, e que outras 3.289 leem placa de veículo automaticamente.
São duas tecnologias distintas. A leitura de placa compara caracteres com o cadastro de veículos procurados. O reconhecimento facial compara rosto com banco de mandados. A busca por detalhe — cor, adesivo, peça de roupa — não depende de nenhuma das duas.
Programa já alcança 194 dos 202 municípios previstos para este ano
A expansão está em 194 dos 202 municípios programados, mais de 90% da meta. As oito cidades restantes devem receber o sistema até dezembro, quando o Estado projeta alcance de 95% da população goiana.
A tecnologia chegou primeiro ao Entorno do Distrito Federal, depois à Região Metropolitana de Goiânia, e só então passou às demais regiões. Concluída esta etapa, o governo pretende estender a plataforma aos 246 municípios do Estado.
“É um sistema que já existe, e agora será ampliado com um número bem mais significativo de câmeras em todo o Estado. Serão mais de 200 municípios atendidos até o final do ano. E, depois, a nossa ideia é chegar aos 246”, afirmou o governador.
Decisão de abordar continua com o policial, diz o governo
O sistema aponta; mas quem decide é o policial. O governo afirma que a tecnologia funciona como apoio e que a decisão sobre a medida de fiscalização permanece com o profissional de segurança.
Com isso, mantém-se a responsabilidade pelo ato — abordagem, busca pessoal, prisão — com a autoridade que assina o boletim, e não com o resultado devolvido pela máquina. A ideia é que a IA Contra o Crime em Goiás entregue indício para conferência, não veredicto, explicam as autoridades.

