Pessoas caminham em terminal movimentado, com uma mulher de óculos em primeiro planoMovimento de pessoas em terminal. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O índice de conservadorismo em costumes do brasileiro subiu de 0,652 para 0,680 em um ano e chegou ao maior patamar desde 2018. No estrato que reúne Norte e Centro-Oeste, onde está Goiás, o indicador alcançou 0,710 — o mais alto entre as quatro regiões e a maior alta de toda a pesquisa. Os dados são da Ipsos-Ipec, divulgados em 13 de outubro.

Resposta rápida: a escala vai de 0, totalmente progressista, a 1, totalmente conservador. O Brasil marcou 0,680 em 2026, contra 0,652 em 2025. O estrato de Goiás subiu 0,067 em um ano, a maior variação do levantamento. Segundo a Ipsos-Ipec, em setembro de 2026.

O que o índice mede, exatamente?

A Ipsos-Ipec monta o indicador a partir de cinco frases apresentadas em ordem aleatória ao entrevistado: legalização do aborto, pena de morte, redução da maioridade penal, casamento entre homossexuais e prisão perpétua para crimes hediondos.

Cada resposta empurra o entrevistado para o lado progressista ou para o conservador. Ser contra o aborto e contra o casamento entre homossexuais, e a favor da pena de morte, da redução da maioridade e da prisão perpétua, é o conjunto que o instituto classifica como conservador.

O resultado vai de 0 a 1 e cai em três faixas: conservadorismo baixo, de 0 a 0,3; médio, de 0,4 a 0,6; e alto, de 0,7 a 1,0. As perguntas sobre posse e porte de armas ficam de fora do cálculo, porque só entraram no questionário em 2023 e quebrariam a comparação com os anos anteriores.

Quanto o conservadorismo cresceu desde 2010?

A série começou em 0,657, em 2010, e subiu até 0,689 em 2018, o pico. Veio então a queda mais funda do período: 0,639 em 2021 e 0,637 em 2022, os dois menores registros em 16 anos.

A curva virou em 2023, com 0,665. Houve recuo em 2025, para 0,652, antes da alta atual. O resultado de 2026 fica a 0,009 ponto do pico de 2018 — ou seja, o índice de conservadorismo praticamente recuperou tudo o que havia perdido no início da década.

A mudança também aparece na distribuição dos entrevistados. Em 2026, 55% ficaram na faixa de conservadorismo alto, contra 49% em 2025. A faixa média caiu de 44% para 38%, e a baixa, de 8% para 7%.

Por que o Centro-Oeste chama atenção nesta edição?

O estrato Norte e Centro-Oeste saiu de 0,643, em 2025, para 0,710, em 2026. A variação de 0,067 em um ano é a maior entre todos os recortes da pesquisa — maior que a de idade, renda, religião, escolaridade e classe social.

É também o único estrato regional que aparece em 2026 dentro da faixa que o instituto chama de conservadorismo alto. Sudeste marcou 0,680, Nordeste 0,674 e Sul 0,659.

O Sul foi na direção contrária: caiu de 0,669 para 0,659 e é a única região com variação negativa desde 2010, de 0,010 ponto.

Existe número só de Goiás?

Não. A Ipsos-Ipec não divulga resultado por unidade da Federação. O recorte geográfico mais fino do levantamento é o regional, e Goiás integra o estrato Norte e Centro-Oeste ao lado dos demais estados das duas regiões e do Distrito Federal.

A pesquisa separa os entrevistados também por condição do município. As capitais marcaram 0,685, com alta de 0,047 desde 2010; o interior, 0,681; e a periferia, 0,665.

Quais temas puxaram a alta?

A prisão perpétua para crimes hediondos reúne o maior apoio: 78% a favor e 16% contra, seis pontos acima de 2025. A redução da maioridade penal tem 71% a favor e 23% contra, também seis pontos acima.

A pena de morte registrou o maior salto: 52% a favor, nove pontos acima do ano anterior, e o maior patamar da série. A rejeição caiu de 49% para 40%.

Nos temas de armas, que ficam fora do cálculo do índice, a flexibilização da posse marca 42% a favor e 51% contra, e o porte, 35% a favor e 58% contra.

Dois itens andaram na direção oposta. O casamento entre homossexuais passou de 38% para 41% de apoio, e a rejeição caiu de 47% para 41%. A legalização do aborto ficou praticamente parada, com 17% a favor e 74% contra.

O que isso tem a ver com o resultado das urnas em Goiás?

Os três temas que mais subiram — pena de morte, redução da maioridade penal e prisão perpétua — compõem a pauta de segurança pública que candidaturas de direita defendem há décadas no Brasil. A pesquisa de campo foi a campo em setembro, menos de um mês antes do primeiro turno.

Em Goiás, Flávio Bolsonaro (PL) somou 2.051.888 votos no primeiro turno, 53,60% dos válidos, conforme a divulgação oficial da Justiça Eleitoral. Lula (PT) teve 1.188.880, ou 31,06%. No país, Flávio ficou com 47,03% e Lula, com 45,16%.

O desempenho goiano do candidato do PL ficou 6,57 pontos acima do percentual nacional, e o do PT, 14,10 pontos abaixo — cálculo desta redação sobre os dados oficiais. As quatro unidades do Centro-Oeste deram a Flávio percentual superior à média do país.

O governador reeleito, Daniel Vilela (MDB), e o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) declararam apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, marcado para 25 de outubro.

A pesquisa permite dizer que o goiano votou pelos costumes?

Não. O levantamento mede posições sobre costumes e valores, não preferência partidária, e não pergunta em quem o entrevistado votou. Também não traz recorte por estado, o que impede cruzar o perfil de costumes do goiano com a urna goiana.

O que os dois conjuntos de dados permitem é a comparação: a região que registrou o maior índice de conservadorismo em costumes é a mesma que deu os maiores percentuais à candidatura de direita. Atribuir causa a essa coincidência exigiria pesquisa que cruzasse as duas variáveis no mesmo questionário.

Quais perfis puxam o índice para cima?

Entre os recortes de perfil, o maior indicador é o dos evangélicos, com 0,717. Católicos marcaram 0,682, e quem declarou outra religião ou nenhuma, 0,627.

Homens registraram 0,712 e mulheres, 0,650, com alta de 0,031 entre elas. Por idade, a faixa de 16 a 24 anos tem o menor índice, 0,622, e a de 25 a 34 anos deu o maior salto etário, de 0,053, chegando a 0,696.

A alta também veio de onde não se esperaria. Quem recebe mais de cinco salários mínimos marcou 0,708, o maior valor da série nesse recorte, com variação de 0,043. Na classe A/B, o indicador chegou a 0,689, com alta de 0,048. Quem tem ensino superior subiu 0,037, para 0,666.

Por raça e cor, os resultados ficaram próximos: 0,682 entre brancos e 0,679 entre pretos e pardos.

Como a pesquisa foi feita?

O levantamento ouviu 2.000 pessoas, de forma presencial, em 130 municípios, entre 9 e 13 de setembro de 2026. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos sobre o total da amostra, com nível de confiança de 95%.

O estudo integra a pesquisa Omnibus mensal da Ipsos-Ipec. O instituto não divulga a margem de erro de cada recorte, que é maior do que a do total, porque cada subgrupo reúne menos entrevistados.

Perguntas frequentes

O índice mede a intenção de voto? Não. Ele mede posições sobre cinco temas de costumes e valores. O questionário não pergunta em quem a pessoa vota nem qual partido prefere.

Qual é o resultado de Goiás? A pesquisa não divulga número por estado. Goiás está no estrato Norte e Centro-Oeste, que marcou 0,710 em 2026.

O que significa um índice de 0,710? Pela classificação da própria Ipsos-Ipec, qualquer valor de 0,7 a 1,0 é conservadorismo alto. De 0,4 a 0,6 é médio, e de 0 a 0,3, baixo.

As perguntas sobre armas entram na conta? Não. Posse e porte de arma de fogo são pesquisados desde 2023 e ficam fora do cálculo, para preservar a comparação com 2010, 2016, 2018, 2021 e 2022.

Houve algum tema em que o país ficou menos conservador? Sim. O apoio ao casamento entre homossexuais subiu de 38% para 41%, e a rejeição caiu de 47% para 41%.

Por Redação

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