Goiânia (GO) · Publicado em
Flávio Bolsonaro (PL) perdeu o segundo turno depois de uma sequência de episódios que custaram votos à sua candidatura, e um deles aconteceu em Goiânia, em 6 de outubro, quando o candidato prometeu mudar a Constituição. Os erros da campanha de Flávio reúnem falas em dois debates, uma peça de propaganda digital e o tom de vencedor adotado antes mesmo da primeira votação. Integrantes do próprio comitê reconhecem parte da lista.
Promessa de mudar a Constituição saiu em Goiânia
Flávio Bolsonaro discursou em Goiânia em 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, em evento que oficializou o apoio do então governador Ronaldo Caiado à sua candidatura. Na ocasião, afirmou: “Já temos maioria no Senado e na Câmara, para a gente mudar a Constituição para redemocratizar o país”.
A declaração repercutiu, e o candidato recuou nos dias seguintes. Ele passou a dizer que respeita a Constituição e detalhou que se referia a mudanças pontuais, pela via do Congresso.
Tom de favorito antecedeu o primeiro turno
Entre os erros da campanha de Flávio citados por integrantes do próprio comitê está o tom da reta final do primeiro turno. Na véspera da primeira votação, Flávio Bolsonaro declarou que não haveria segundo turno e afirmou que já marcava reuniões para montar o governo. O clima de vitória antecipada foi explorado pela campanha adversária.
A postura afastou o eleitor de centro, que ainda não havia decidido o voto e que decidiria o segundo turno.
Vídeo de Nikolas no Nordeste virou problema para a campanha
Até mesmo integrantes da campanha classificaram como erro um vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em que nordestinos aparecem criticando Lula. A peça foi lida como depreciativa ao eleitor da região.
O material ajudou a ampliar a vantagem de Lula no Nordeste e também pesou em Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha.
Ironia sobre dedo amputado terminou em pedido de desculpas
No último debate do segundo turno, em 23 de outubro, Flávio Bolsonaro disse que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”. A frase remete ao acidente de trabalho em que o presidente perdeu um dedo, na juventude.
O candidato pediu desculpas em seguida, tarde demais: pesquisas qualitativas com eleitores indecisos registraram reprovação ao episódio. Ironizar uma deficiência física é o tipo de ataque que não rende voto e fixa imagem.
No mesmo debate, ele se dirigiu a uma mãe presente na plateia chamando-a pelo nome da filha morta, num caso criminal em que atuou como advogado de defesa. No primeiro debate do segundo turno, em 18 de outubro, havia sustentado que “a advocacia não pode ser criminalizada”.
Descrição de Belém provoca reação de moradores do Pará
Ainda no debate de 23 de outubro, ao tratar de saneamento básico, o candidato descreveu Belém com esgoto a céu aberto, urubus e mau cheiro. A fala provocou reação de moradores do Pará nas redes sociais. O estado é um dos que Lula teve grande votação.
Erros isolados não explicam sozinhos a derrota
A lista acima pesou, mas não decidiu a eleição sozinha. Em entrevista ao portal Terra, a professora de Ciência Política da Uninter Karolina Mattos Roeder afirma que a virada se explica pela ampliação dos grupos que apoiaram Lula, com artistas, influenciadores e pessoas sem experiência militante, somada à retomada da estrutura digital da campanha.
“Esse movimento tem relevância analítica porque os fandoms operam como redes de mobilização de alta densidade”, afirma. Ela acrescenta que Flávio Bolsonaro ficou atrás por ter um teto de adesão menor, e não por perder votos em termos absolutos: “seu teto de adesão se mostrou inferior ao de uma coalizão ampla”.
Também ao portal Terra, o cientista político e professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rogério Baptistini avalia que a margem do primeiro turno era reversível, diante do número de eleitores que não escolheram nenhum dos dois candidatos. “Mais de 39 milhões de eleitores se abstiveram ou votaram em branco e nulo no primeiro turno”, diz.
Baptistini aponta uma contradição de estratégia: o candidato tentou acalmar o eleitorado de centro e, ao mesmo tempo, manter a base mais fiel. “Cada frase dirigida a uma metade do eleitorado assusta a outra metade”, afirma. Para ele, a disputa se decidiu por rejeição: “Como em 2022, esta foi uma competição de rejeições”.
Candidato derrotado não reconhece o resultado
Na noite de domingo, em Brasília, Flávio Bolsonaro declarou a jornalistas que não reconhece o resultado da votação. Ele citou a prorrogação do horário de votação determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF.
O TSE encerrou a totalização às 23h26 de domingo, com 100% das seções apuradas e diferença de 4.430.191 votos entre os dois candidatos. Flávio Bolsonaro deixou o local sem responder a perguntas.

